sábado, 2 de outubro de 2010

Retratos da situação política às vésperas das eleições: Política e Geografia

A motivação em escrever as breves análises e opiniões sobre esse tema não vem de hoje. Entretanto, no dia que antecede ao comummente chamado o exercício democrático por excelência, o pleito eleitoral, a colocação de algumas reflexões parecem bastante oportunas de serem colocadas, pensadas e debatidas. Enquanto geógrafo, me parece importante pensar a política independentimente de sua situação de estabilidade ou crise, uma vez que a meu ver o cerne da geografia se encontra na política, não só aquela do Estado-Nação, mas também nas esferas imediatas do cotidiano do homem e toda a complexidade das inúmeras instâncias e escalas das relações de poder que se manifestam espacialmente. A questão é que mesmo se considerando as formas de poder nas relações mais gerais entre cada um de nós, a tônica para se discutir uma política institucional se torna eminente, pois estamos há poucas horas das eleições, e o governo que reger-nos-ão afetará não só a política institucional do Estado, como também outras muitas demais formas de poder, em um maior ou menor grau. A geografia, por ser a ciência que estuda o espaço da morada do homem - a superfície terrestre - e a construção de sua espacialidade deve entender os sujeitos, estes homens e mulheres, que antes de tudo são socialmente dispostos e se organizam em sociedade uma vez que mediados pela política, o público, o coletivo, sintetizados no chamado contrato social. É por isso que para a geografia e para os geógrafos se torna fundamental se falar de política, sobremaneira em tempo de eleições, com o agravante de serem ainda - não só, mas também - eleições presidenciais.
Infelizmente, a concepção de política hoje se encontra profundamente esvaziada. Enquanto nossos representates se orgulham - em um profundo ufanismo - em dizer que o Brasil é um dos países mais democráticos do globo, parece não ser muito importante para eles discutir uma questão central: Afinal, o que é a democracia? Hoje, podemos, ainda que de forma grosseira e generalizada, dizer que a democracia, segundo os óculos do governo, é sinônimo de representação. Esta (con)fusão democracia-representação está tão arraigada e inculcada em todos nós, que não raro não atentamos para esse fato. Enquanto isso, nós só depositamos na urna os votos naqueles que acreditamos que representar-nos-ão melhor. No ato de representar encontramos uma ambiguidade: a de tranferir os poderes particulares à um poder de governança mais restrito e legítimo, enquanto socialmente aceito pelo contrato; como também o de representar tal como um ator, logo, atuando e simulando certas coisas. Então, via regra, votamos com o primeiro sentido da representação (transferência de poder) e não raro, nossos "representantes" atuam de forma a conceder privilégios à uma elite e promessas que não se concretizam às massas. Conforme aprendi com um brilhante professor, se fosse possível um antigo grego olhar para a nossa democracia, certamente ele diria que erramos no conceito. Diria que estamos em uma aristocracia, uma vez que é o governo dos melhores. Assim como quando vamos ao médico, queremos ser atendido pelo melhor, queremos o melhor professor, o melhor para as nossas vidas, igualmente vamos querer o melhor governo na direção do Estado. Para aqueles gregos de Atenas, a democracia representa deliberação pública na ágora por parte de todos seus concidadãos, se configurando assim um auto-governo das massas. É bem provável que ninguém duvide a impossibilidade de se viver politicamente como os gregos, quando temos hoje, milhares de anos após e no Brasil, uma população que se mede na casa dos milhões. População essa que como diziam Michels, Paretto e Mosca (a corrente elitista) está dividida em massas e elites e na visão destes, a história representa um "cemitério de elites" como o mesmo professor - Renato Lessa - explicava em suas brilhantes aulas. Cemitérios pois a elite se conservava no poder, podendo ter a sua hegemonia colocada em xeque por uma contra-elite. Mas nesse conflito que resulta em uma instabilidade, caso a contra-elite saia vencedora, sairá do conflito enquanto elite hegemônica. O que questiono aqui é a falta de ação política por parte da população como um todo. A falta de participação é tão intensa que se traduz até no termo política, uma vez que ao ouvir a palavra "política", imediatamente associamos à esfera da política institucional, como algo alheio de nós. Enquanto não participarmos de forma menos limitada, enquanto não se tiver comida para todos, enquanto não se tiver casas e condições dignas para todos, não podemos falar em democracia. Assim como não podemos entender a democracia em toda sua plenitude enquanto acreditarmos que somos cidadãos uma vez a cada dois anos e aceitar - como é conveniente para o governo e ele assim quer que o seja - que as eleições são a maior festa democrática do país. Eu me pergunto que outra "festa" democrática que nós somos convidados, ou intimados a comparecer? A própria obrigação de se votar já não feriria esta mesma democracia? O que consigo apreender é que este ano o espírito da eleição está sem dúvida festivo: Enfeites excessivos que tentam nos convencer ou nos coagir a votar naqueles candidatos e segundo, até mesmo o palhaço está na festa, concorrendo a disputa para deputado federal. Três vivas para o palhaço Tiririca. Viva o pior que tá não fica. Viva, seja lá o que for o que faz o deputado federal. Viva o voto de protesto no palhaço, a democracia. E quanta hipocrisia!
A descrença na política parace se acentuar mais e mais, enquanto nas ruas se vê mais propagandas, uma verdadeira poluição visual da paisagem. Contradição bizarra essa: A política se encontra profundamente desacreditada e se apela em propaganda em cima de tal descrença. Nunca antes eu havia visto tantos panfletos e cartazes nas ruas do meu bairro. As propagandas não eram nem mesma retiradas durante a madrugada, estão lá 24 horas por dia! Somado a essa falta de credibilidade para com a política, vemos candidatos dos mais estapafúrdios e com as propagandas mais absurdas pedindo nossos votos. Pior ainda, não raro escuto dizer que quem votará neste tipo de candidatos o fará como voto de protesto. Um completo absurdo! Não consigo conceber tal forma de protesto, seria isto sim, um atestado de incompreensão e falta de politização crítica.
Talvez eu possa propor que nossa pseudo-democracia é fruto do projeto de uma ditadura que não tinha mais o apoio para se manter como tal, no poder. O milagre foi por água a baixo, com isso a classe média descobria que a ditadura praticava torturas e perseguia opositores políticos, promovia atentados. Assim o regime militar perde seus pilares de sustentação. Mas a abertura (política) foi lenta, gradual e segura, como queria Geisel. A anistia foi ampla, geral e irrestrita. Todo o caminho rumo à democracia era trilhado pela ditadura. E o que dizer do último militar no poder, Figueiredo, que declarou que levaria o país a democracia, nem que tivesse que ser na base da porrada? Quer queiramos, quer não, essa é a nossa herança democrática. No meu olhar como geógrafo, atento para a questão da educação e em particular, é claro, a geografia. Foi na ditadura militar que a geografia virou estudos social, junto com a história, para o ensino fundamental. O currículo escolar ainda acrescentava educação moral e cívica para atender aos auspícios militares criando um sentimento ufanista desde a tenra idade. A geografia, por sua vez tinha que estar ao serviço do regime, e assim estaria sendo somente se fosse desinteressada, despolitizada, neutra, que decora o nome dos rios e das capitais, ou simplesmente "simplória e enfadonha", como diz Lacoste. Mas como essa geografia ajudaria ao sistema se apresentando deste modo? O mesmo Lacoste nos dá a pista. Diz ele que essa geografia tem de parecer nada interessante para camuflar e obscurecer seu real significado. "A geografia - Isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra". Quem faz a guerra é o Estado e nela se precisa conhecer o espaço de forma estratégica, foi assim que surgiu a geografia, para atender ao Estado. Mas, tanto como a geografia não serve so para fazer a guerra, ela então pode servir ao Estado de outras formas, ocultando essa sua face nas escolas. No contexto de uma ditadura militar, se falar de política é extremamente inconveniente. Mas como fazer com a geografia, que é um conhecimento essencialmente político na observação e decifragem do espaço do homem? A resposta foi dada camuflando o "real propósito" da geografia, que surge da guerra, da estratégia. Estranhamente, não é raro ouvir-se dizer que na época da ditarua a escola pública era de qualidade, entretanto, mesmo que tal postulado seja verdadeiro, a educação não poderia ser crítica. Hoje o quadro se inverte. Em razão da possibilidade da educação pública ser crítica, ela é sucateada e degradada, o que resulta na mesma falta de consciência política. O que muda é tão somente a natureza das restrições. Enquanto na ditadura a restrição era explícita, em nossa democracia ela é dissimulada, alegando-se falta de recursos para investimentos na educação. Um dos principais desafios da geografia hoje é servir à sociedade, contra as injustiças praticadas pelo Estado e por seus privilegiados.
Eis que os jovens, tanto os que foram na ditadura quanto os de hoje, em sua grande maioria desconhece um dos prpósitos encantadores da geografia: a política. A escola, enquanto organização do governo da qual depende a maioria dos estudantes não os formou de forma crítica e de forma politizada. Amanhã, eles assim como nós votaremos e nossas opções não são muito das melhores. Na verdade, eu particularmente acho que nunca se teve tantos absurdos e descrença na política. Basta olharmos para alguns de candidatos. Tiririca, mulher melão, Romário, Bebeto. Tem para todos os gostos, palhaços, mulher fruta, esportistas.
Por fim, cabe salientar que a geografia, assim como a política não tem nada de neutra como alguns querem que no contrário se acredite. Cabe a nós decidirmos e nos orientarmos explicitamente com relação a nossas escolhas, essa seria a ética mais apropriada quando se entende a inexistência da neutralidade. É por isso que eu destaco um candidato que só veio a me surpreender e acreditar na mudança, em um mundo melhor, na polítização e no espírito de transformação dos jovens. O candidato a presidência Plínio Sampaio, foi o que me pareceu mais coerente e fiel aos seus princípios, a sua luta e ao seu partido.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

5 de Abril de 2010 : A prova cabal da fragilidade urbana carioca e fluminense, ou será também algo além disso?

O Problema...





Segunda-feira, seria mais um início de uma semana como outro qualquer. Pessoas acordando cedo para ir trabalhar, estudar - de modo mais geral - praticar o seu espaço, sair de suas casas e vivenciar as ruas. Porém, a semana terminou sem começar. Isso porque em seu primeiro dia útil, a cidade viu, perplexa, a sua incapacidade e imobilidade frente à enchente. A cidade viu a baixada inundar e a encosta deslizar. Eu, particularmente, estava em Niterói e na volta pra casa, lá pelas 5 horas da tarde, fui surpreendido como milhares foram. Pouco antes de chegar à Praça da Bandeira, o ônibus parou no engarrafamento, mas não fora só o ônibus que parou, fora toda a cidade. Depois de meia hora parado que fui me dar conta que o problema ia além da paisagem que meus olhos podiam abraçar. Dentro do ônibus, desorientação e inquietude, fora dele, a realidade parecia ser a mesma, entretanto, a inquietude se traduzia em imobilidade, todos inertes. A única dinâmica era a da natureza: a chuva torrencial, ruas dando lugar a rios, inundações... No alto de um viaduto, olhava ao lado carros, em um deles, um homem tentando tirar toda a água - com um pequeno recipiente - do interior de seu veículo, e este, dentro da rua que virara rio, onde corriam águas e lixos. Os carros, ao contrário, para não escoarem junto com as águas, declive abaixo, eram colocados em cima da calçada, na medida do possível, embora essa medida não evitasse menos transtornos, ao contrário, parecia em vão. Era essa a síntese da cena que eu somente podia observar. A cidade estava prestes a sucumbir





As geografias do Rio de Janeiro convergem à uma geografia do caos...





O espaço carioca não parece ser tão maravilhoso quanto a titulação de sua cidade: sua paisagem sem dúvida é belíssima e isso não se pode negar, porém, também a é contraditória, é problemática. De certa forma, o espaço carioca é completamente incompatível ao modo de vida urbano vigente até então. Chuvas torrenciais e cidades são duas esferas que ainda não se combinam harmonicamente embora elas coexistam em nosso espaço-tempo, mas essa coexistência é marcada por incompatibilidades. Prova disso é que quando encontra-se o tempo nublado, chuvoso, designa-se como "tempo ruím", traduza-se tempo ruím à cidade, na medida que quando há sol e céu claro, é o tempo bom para a cidade, porque não lhe impõe restrições a priori. A questão é que o Rio de Janeiro apresenta clima tropical oceânico, o que se traduz em altas temperaturas e chuvas concentradas no verão. "São as águas de Março fechando o verão", já diria Tom Jobim, para esse ano, sua "misteriosa profecia" se atrasaram algumas poucas semanas. Fecharam não só o verão, mas também as ruas e toda a cidade. É inacreditável como uma cidade, um estado e até o país como o nosso não demostram a menor importância com essas questões, e nossos "representantes" continuam a fechar os olhos para esse problema. Esse mesmo clima e os processsos geomorfológicos interagindo entre si, também junto à vegetação, é o que Aziz Ab' Saber chama de mares de morros, o domínio morfoclimático da região Sudeste. O sítio urbano do Rio de Janeiro, isto é, a base física sobre qual a cidade tenta se tornar viável, é exatamente isso. Um sítio altamente irregular, com ampla presença de morros, o que sempre foi uma preocupação. O sítio carioca pode ser caracterizado, de forma geral, por morros e baixadas, isso sem contar o artificial adventos de aterros. Considerável parte do território encontra-se situado entre os morros e o oceâno, foram essas áreas que alagaram. Já nos morros, tem-se um rasa camada de sedimentos e abaixo desta, rochas pouco permeáveis (magmáticas ou metamórficas). Ocorre que quando uma chuva torrencial como a de segunda-feira cai sobre esse espaço, o resultado não pode ser diferente. A camada pouco profunda de sedimentos é rapidamente saturada, o que significa que em pouco tempo adsorve a água, sua capacidade de absorção é então muito limitada. O grande excesso de águas da chuva, não sendo infiltrado pela camada sedimentar, atinge a rocha impermeável e com a declividade do terreno, a água escoa superficialmente. Os sedimentos, mais pesados uma vez que estão enxarcados, deslizam rocha abaixo. Foi isso o que ocorreu nessa segunda-feira. As encostas deslizaram, carregando grande carga de sedimentos. As baixadas, alagadas e recebendo mais materiais das encostas. É isso toda a lama que encontramos essa semana por grande parte do Rio de Janeiro. Lama por todos os lados. É conviniente lembrar que a cidade do Rio de Janeiro foi criada em cima do morro do Castelo, com finalidades militares, possibilitando uma melhor tentativa do controle do território, uma vez que os francêses tinham acabado de ser expulsos. Conforme a cidade foi crescendo, ela foi descendo o morro, ocupando as áreas mais baixas. Mas foi no século XX, na década de 20 que a política do Bota Abaixo começou a ser implementada. O morro passou a ser visto como transmissor de doenças, barreiras que impedem a circulação do ar, e por isso, haveriam de ser colocados abaixo. Foi isso que aconteceu com o morro Castelo. A visão que o Estado de hoje tem com releção aos morros parece não ser muito diferente da do início do século passado. Com relação a isso, pouca coisa mudou. Outro aspecto geográfico que potencializou os efeitos do desastre é a divisão sócio-espacial de nosso espaço. A população pobre, marginalizada, vão acabar criando seus lugares nos morros, já que a especulação imobiliária e a elite tomaram conta de todo o resto e criaram os mais variados mecanismos de impedir o acesso e a moradia de pobres nesses espaços, sendo os principais deles a polícia e as políticas de muito de nossos governantes.





Políticos que sempre buscam e apontam culpados. Nos chamam de porcos, badernistas e vândalos, nos chamam às ruas e agora...










Depois desse trágico acontecimento, me vem a cabeça alguns episódios, que já havia discutido com alguns amigos e agora, aproveito a oportunidade pra colocar essas reflexões, que parecem bem oportunas agora. Se não me engano, o primeiro deles foi em novembro passado, quando nosso prefeito, excelentíssimo Eduardo Paes, que sistematicamente tem colocado a culpa de todos os problemas sobre a população. No final do ano passado, o Estado adotou a política do "lixômetro" nas praias e chamou, em rede nacional, os cariocas de porcos! Declaração infeliz, uma figura pública dar um relato tão leviano e descuidado. Responsabiliza a população pela sujeira nas praias para poder cortar gastos governamentais, uma vez que a idéia da política era suspender a coleta de lixo em determinados dias da semana. Em contrapartida, o Estado não oferece uma educação pública de qualidade e tripudia de seus professores, um descaso total. Será mesmo a população porca, ou será o governo desinteresado, a busca de culpados por situações que ele não é capaz de resolver? Será a população porca, ou estará a cidade sinalizando mais uma vez toda a sua fragilidade? Sérgio Cabral, governador do estado, que por sua vez, diga-se de passagem, há dois anos atrás executou uma brilhante manobra política, decretando feriado às vésperas das eleições para prefeito, garantindo a vitória de Eduardo Paes. Só para constatar, a população que viajou para a Região dos Lagos e não voltou para exercer sua cidadania foi aquela de maior poder aquisitivo, da zona sul do Rio de Janeiro, que por sua vez, era um dos maiores eleitorados do outro candidato, Gabeira. A minha crítica com relação a essa população que viajou e não voltou não é menos severa! É inadimissível que uma elite econômica e, partindo do presuposto que bem informada, caia nessa manobra. É inadimissível esse descaso com a política por parte desses que abriram mão de eleger seu candidato para passar alguns poucos dias, aproveitando o sol da Região dos Lagos. Após esse largo parênteses, voltando ao nosso governador,o que chamou a atenção foi com relação ao episódio dos problemas com os trens da Supervia, em particular na estação da Central, no início desse ano. A população trabalhadora, indignada com as pessímas condições dos serviços oferecidos se rebelou, alguns cometeram atos mais extremados em protesto. Mas, a resposta do Estado foi a de sempre: repressão da PM e a declaração de nosso governador foi de que eram bardernistas e vândalos que impedem o funcionamento da cidade e se aproveitaram da situação. Mais uma vez o Estado busca um culpado, que sempre é a população ou parte dela. Após mais uma declaraçao infeliz de uma figura pública que nos "representa" no poder (eu não me vejo representado por eles) o mesmo governador chama a população que fora acusada por duas vezes às ruas. O chamado do povo às ruas não pode ser feito de modo mais indígno. Refiro-me à recente passeata pelos royalties de petróleo. Nunca vi coisa mais inusitada, governador e prefeito, a situação política, organizando uma passeata, em tom de protesto. Só consigo ver esse acontecimento como um atentado do Estado perante a capacidade de mobilização do povo. É como se o Estado dissesse: "Povo, venha às ruas pois eu o convoco. Teremos pão e circo e lutaremos por um interesse econômico nas mãos de poucos, os royalties do petróleo". Afinal, será que aquelas pessoas que lá estavam sabiam mesmo o que estav acontecendo, ou foram para assistir ao show de alguns artistas? Se por um lado, esse episódio mostrou, positivamente, que ainda temos capacidade de nos mobilizar e nos organizar - ainda que de modo questionável - por outro, mostrou também a fragilidade de tal mobilização. Não que a causa do royalties para o Rio de Janeiro não seja justa, mas o que não é justo é o governo, com seu poder político usar de uma arma política da política que não é do Estado, e sim daqueles que não estão no exercício do poder diretamente, mas sim nas massas. Isso sim são as verdadeiras passeatas. Políticos que nos chamam de porcos, badernistas e vândalos, nos chamam às ruas e agora...novamente responsabilizam a população que mora nos morros, nas favelas. Dizem eles, prefeito e governador, que já alertaram inúmeras vezes para o perigo de se morar em áreas de risco. Quanta hipocrisia! É um absurdo termos que ouvir isso! Os que estão no poder nada fazem a não ser culpar a grande parte do povo que vive marginalizada, a mercê do tráfico e das milícias, além de preconceitos e generalização, são duramente responsabilizados pela tragédia. Que culpa tiveram essas pessoas que moram em "áreas de risco"? Lá elas moram não por opção, mas justamente por falta de escolha. O próprio Estado foi, historica e geograficamente, marginalizando a população de baixa renda nos morros, promovendo a segmentação sócio-espacial, e isso vem de longa data. Para esses políticos, é muito fácil culpar essa população pobre, já que não é conviniente promover um programa de habitação que seja realmente popular. É mais conviniente, para eles, contruir cidade da música, do samba, engenhão e mais outras obras-espetáculos, transformar a cidade em um quintal de obras não raro supérfluas, mas que no senso comum, é visto como aquele que "rouba mas faz", porém o faz aleatoriamente, ao meu ver, sem ou com quase nenhuma razão de ser.










Intercâmbio de uma mídia - não raro sensassionalista - com a política institucional










E qual tem sido o posicionamento desses políticos frente a essa tragédia? Já que é impossível para eles se absterem de algo com tamanha magnitude, o que parece é que eles tentam mostrar que algo estão fazendo, sem fazer absolutamente nada na prática e somente se apropriar da mídia com fins de auto-propaganda. Afinal, estamos em ano de eleições. E a primeira prática efetiva que tive notícia, hoje de manhã, foi que tornou-se legal a retirada de pessoas das áreas de riscos. Não que tal remoção não seja necessária, mas com sua sistemática realocação em habitações populares de qualidade. Mas possívelmente isso não será feito. E o que será considerado como áreas de risco e como essas remoções serão feitas, por meio de repressão e violência? Certamente! Na outra direção, o que a mídia vem veiculando a respeito dos acontecimentos? Pelo que pude ver até agora, com raríssimas excessões, o sensassionalismo é carro chefe nas grandes emissoras. Ao ver as cenas da tragédia - e acredito que muitos sabem das cenas que me refiro - lembro-me do modo como o problema da violência é tratado por essa mídia, isto é, de modo massante e implacável, tranformando realidade em espetáculo sobre um desconhecido crivo de imparcialidade. Durante toda a terça-feira a tragédia virou uma espécie de espetáculo. Não que as notícias não tivessem que ser dadas, muito pelo contrário. Mas questiono, sobretudo a forma que elas vêm sendo feitas. É por isso que chamei de intercâmbio essa relação entre política e mídia, em que uma parece visar e complementar a outra, com fins políticos de governança e controle da sociedade através de possíveis prestações de contas perante a tragédia que se abateu sobre o Rio de Janeiro. Prefeito e governador dando comunicados veiculados pelas emissoras de tv. Não saiam de casa, pediam eles. Mas de modo contraditório, o recado para os moradores das "áreas de risco" era o seguinte: "saiam imediatamente de suas casas" e fiquem em um lugar seguro (eu me pergunto: qual?). Outra contradição, dessa vez principalmente com relação à mídia, é que a toda hora se relaciona a tragédia com a geografia do Rio de Janeiro. Sim, de fato tudo tem a ver, porém, a mídia só fica no senso comum da geografia do Rio de Janeiro, sem ter a real idéia de o que isso é ou significa. Prova disso é que a todo momento vemos o meteorologista, explicando os fenômenos atmosféricos; os engenheiros, arquitetos e urbanistas, dando entrevistas a respeito da cidade e as infra-estruturas urbanas. E os geógrafos, quantas vezes um geógrafo foi entrevistado para explicar essa trágica enchente? Fala-se tanto em geografia do Rio de Janeiro, mas se esquecem que quem a estuda e a compreende em tudo o que ela é são os geógrafos. Sabe-se lá porque aos geógrafos, cuja geografia tanto falam, nada é perguntado.





Da meteorologia e dos meteorologistas: Incapacidade técnica ou negligência irresponsável?










Uma outra questão que me deixou muito perplexo e com certo que de uma de mistura de indignação e frustação foi a seguinte: porque o silêncio de nossos meteorologistas? Será que eles não tinham o aparato necessário pra prever essa "anomalia"? Será que preveram, ainda que em menor escala, mas resolveram de modo irresponsável não dar o alerta? Ou será que o modo como essa ciência está se fazendo não é capaz de responer certas perguntas, de prever nada, e somente explicar uma mera fisica da atmosfera? Explicam eles que o Rio de Janeiro encontrava-se com altas temperaturas e com a temperatura do mar também muito elevada, próxima aos 28ºC. Isso provocou uma alta taxa de evaporação, carregando mais as nuvens da frente fria. Tal explicação, embora necessária, parece não ir muito além dessa física da atmosfera, mostrando seus mecanismos de funcionamento. De fato são de grande importância, entretanto, porque não fora dado o alerta? É bem verdade que o Brasil depende da tecnologia norte-americana - se não me engano utilizamos o satélite meteorológico GOES - e o sistema de meteorologia nacional ainda conta com mais 20 radares.














Concluindo...










Enquanto essa visão - que ofusca e faz cegar, cala e despreza toda uma geografia - não for superada, o fantasma do caos irá pairar sobre a cidade. Ele continuará sendo a profecia da geografia cuja voz insiste em ser calada. Essa tragédia da enchente não pode ter suas explicações oferecidas somente pela engenharia, a arquitetura e o urbanismo. Esse reducionismo descuidado faz por tentar camuflar o cerne dos problemas do espaço do Rio de Janeiro, a geografia, seja em seus aspectos políticos-espacias e socias, seja em seus aspectos naturais, sobre qual a geografia tem o dever de explicar e integrar, para uma explicação holística e que dê uma melhor compreensão desse mundo e de sua realidade, que por vezes, parecem escorrer por nossas mãos.

E até quando o dia 5 de Março será lembrado? Sendo otimista, quem sabe até acabar o sonho de 2016 com as olimpíadas, ou talvez bem antes, quandos todos nós apertarmos o verde das urnas, participando daquilo que é conviniente chamar de "a maior festa democrática", que só existe aos olhos dos interesses do governo. Este espera que estendamos nas janelas nossas bandeiras verde e amarela, com a dobradinha copa do mundo e eleições, o Brasil vive em festa, dentro de pouco ela começará esse ano. Assim que o Estado sair de um pseudo-luto.

Felipe Cavalcanti.

domingo, 29 de novembro de 2009

Uma resenha geográfica e crítca do texto: As lições da tsunami

O estudo da autora situa-se em um contexto de profundas mudanças, o que se convencionou chamar de crise da modernidade e o possível advento de uma fase pós-moderna. Esse novo paradigma se sintetiza através da (des)ordem do espaço globalizado, que superestima o econômico e subestima todas as demais questões. A ordem do mundo globalizado apresenta como uma de suas facetas a subordinação da sociedade e das questões ambientais perante ao econômico. Em suma, segundo essa lógica, tudo estaria a serviço da economia. Tal globalização não seria soberano triunfante como o mundo acreditara a partir de 1989/1991 – com a queda do muro de Berlim e o fim da URSS, respectivamente – até 2001. Eis que este ano se torna emblemático pelo atentado terrorista no World Trade Center, em 11 de setembro. As ruínas do símbolo da economia mundial revelava um dos aspectos de toda fragilidade de nossos tempos, sendo parte que integra todo um conjunto que Leonardo Boff chama de crise civilizatória. A autora parte de outro ponto que revela essa crise geral, a tsunami de 26 de dezembro de 2004, também inserida em todo o contexto.
SHIVA começa suas reflexões sobre a tsunami já chamando a atenção para a época do ano que o fenômeno ocorreu. Se deu logo um dia após o natal, nas festas de final de ano, em que turistas de toda a parte na Índia e no sudeste asiático como um todo se encontravam. Isso contribuiu para a maior difusão de notícias e a grande repercussão do acontecido. Mas se não fosse durante a alta temporada turística, o desastre teria recebido todo esse destaque? Se só a população asiática tivesse sofrido com a tsunami ele teria tamanha ênfase? Embora tais indagações sejam complexas de se responder a priori, elas nos levam a concluir que ainda hoje existe o etnocentrismo, que coloca em enfrentamento os países desenvolvidos – detetores da civilização – e os subdesenvolvidos, o chamado conflito norte x sul da nova ordem mundial.
Após essa breve introdução, a autora busca encontrar as lições que a tsunami teria provocado à sociedade. E resume a questão – também como forma de dar um ponta pé inicial para discuti-la – dizendo : “Necessitamos escutar a Terra”. Então, ela apresenta a primeira lição, identificando a problemática do desenvolvimento das regiões costeiras. A exploração econômica dessas áreas se da de formas mais variadas possíveis, como atividades de hotelaria, criação de camarão, etc. A autora chega à conclusão de que a vegetação dos mangues, os corais funcionam como barreiras para esse tipo de desastre. Como onde a tsunami ocorreu tal barreira não era efetiva, tendo em vista à atividade turística, a destruição foi potencializada. SHIVA bem coloca que as áreas mais atingidas pela tsunami foram aquelas que eram mais densamente industrializadas e com maior produção de camarão, e sendo por isso mais alteradas. Em contrapartida, nos territórios de tribos nativas, o número de mortos foi muito menor. Com isso, a autora fornece uma prova da validade da primeira lição.
Em seguida, a autora levanta a problemática de que os governos optam por um projeto de desenvolvimento que desconsidera, ou secundarizam os problemas ambientais. Entretanto, ela não explicita que o governo é, não raro, um Estado de privilégios concedidos a pequenos grupos (elites) que o apóia e que se auto-constitui – de maneira que a elite não só é beneficiada pelo Estado, como também o compõem. Esse é o modo de produção do espaço no sistema capitalista, que está no cerne mais profundo de toda essa problemática.
Outra lição é discutida, em que a sociedade de mercado, ao ter como principal objetivo o econômico, está fadada à intensas dificuldades de lidar com desastres, uma vez que a natureza e o homem são fatores em segundo plano, subordinados ao imperativo do capital. Nesse questionamento, a autora fornece um excelente exemplo, quando diz: “Enquanto as bolsas de valores reagem instantaneamente aos sinais mais tênues de oscilação do mercado(...) o mundo levou semanas para contar quantos morreram, quantos ficaram sem teto”. Isso nos permite verificar que o problema não é a tecnologia, mas sim a quem ela está a serviço. Caso tivesse a serviço da sociedade como um todo de forma simétrica, tais informações indagadas pela autora seriam mais rapidamente estabelecidas.
Merece destaque outra passagem, sobre o artigo da Índia em que foi declarado que “o mercado não seria afetado pelo desastre” evidenciando o descaso com os problemas sociais e a “boa” notícia, pelo âmbito econômico que tudo reduz e parece deixar o sistema capitalista em torpor.
A terceira e última lição que a autora coloca diz respeito ao link entre a tsunami e outras formas de desastres, com destaque para as mudanças climáticas, dando uma idéia mas articulada e de inter-conexão entre os problemas sócio-ambientais. Entretanto, a autora negligencia o fato de a Índia estar em uma área de instabilidade geológica, com intensos choques entre as placas Euroasiática e a placa indiana, as mesmas que ergueram o Himalaia. SHIVA parece acreditar que a tsunami é um fenômeno climático, embora também o seja, a base para seu entendimento é a geologia. O espaço geográfico - a síntese do conflito sócio-ambiental - mais uma vez é negligenciado. Para explicar esses desastres, a autora faz uma boa crítica a Lomborg e ao consenso de Copenhagen. O primeiro, por negar a redução do lançamento de gases CO², alegando que reduzir-se-ia o crescimento econômico. E o consenso por minimizar os possíveis efeitos no clima pelas atividades econômicas e/ou industriais.
Para finalizar, a autora exalta o prejuízo provocado pelo que ela chama de “maior tragédia dos tempos modernos” como sendo o privado em detrimento ao público, ou seja, o conflito de interesses entre público – que deveria ser de interesse do governo – e o privado – que o governo privilegia. Outra questão posta ao final do texto, é a dicotomia entre o livre mercado e o que a autora chama de “democracia na Terra”. O livre mercado, representa o sistema capitalista. Já a democracia na Terra, é abordada pela autora de forma reducionista, de uma forma dotada de um antropocentrismo, há que se considerar o direito à vida por todas as formas de vida, uma visão biocêntrica.


Referência bibliográfica:
SHIVA, Vandana – The ecologist 2005

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Por Uma Geografia Crítica do Projeto " Ecolimites"



Ao assistir o jornal RJTV da rede globo lá pelas 7 horas da noite de hoje, não pude deixar de notar uma reportagem de
enorme conteúdo geográfico e que ainda tem muito de ser discutido. O tema era sobre os ecolimites, que já está em destaque na
mídia há algum tempo, sendo atrelada a outra temática - a pacificação do Morro Dona Marta em Botafogo - este já não tão recente
assim.
O projeto do governo estadual - que está sendo conhecido como “ecolimites” - consiste em construir enormes paredões
ao redor das favelas do Rio de Janeiro. E o que pretende o governo com isso? Ora, como já diz o nome, o objetivo é impedir
o crescimento desordenado das favelas, a fim de preservar a natureza da cidade maravilhosa. Basta construir ecolimites e todos os
problemas ambientais estarão resolvidos? Não sejamos tão ingênuos! Será que somente a questão ambiental está por trás disso?
O meio ambiente está no cetro das atenções a nível mundial. É claro que essa questão merece toda a nossa atenção,
poderia enumerar uma série de problemas ambientais, tais como o aquecimento global e os grandes perigos das atividades
mineradoras e da energia nuclear, mas não pretendo abordar isso mais a fundo, quem sabe uma próxima vez. No que diz respeito a
essa questão em moda, devo alertar que há uma grande especulação sobre o meio ambiente - principalmente por parte da mídia.
Voltando à questão do Rio, me parece que os problemas ambientais estão longe de ser o objetivo central da política em
nosso estado. Prova disso é o imenso descaso com a Baía de Guanabara. Somente em 2001 que a estação de tratamentos de suas
águas foi inaugurada e ainda assim, 5 anos depois, somente um quinto de sua capacidade operava em maio de 2006. Com relação ao
projeto dos ecolimites, a ecologia deve apresentar sim a sua importância, porém, ela é secundarizada frente à questão social que
isto tudo permeia. É nesta segunda questão que proponho minha reflexão.
O espaço do Rio de Janeiro é um espaço marcado pelas contradições. Em termos sócio-econômicos essas contradições
saltam à vista, mesmo a um breve olhar. E a síntese disso é a dicotomia, que já se tornou clichê: de um lado o morro, de outro, o
asfalto. De um lado, Rocinha, de outro, São Conrado. De um lado Cantagalo, do outro, Ipanema. Está é uma das contradições, a
elite econômica vive ao lado daqueles que ela vê como os “favelados - criminosos”.
Voltando um pouco no tempo, podemos detectar a origem do problema das favelas no Rio de Janeiro, bem como em todo o
Brasil. Refiro-me à escravidão. Outro fator importante é a concentração de terras, originada no início da colonização pelo sistema de
capitanias hereditárias. Concentração fundiária essa que permanece e se acentua até os dias de hoje. Eis que com a vinda da família
real criou-se a polícia. No lugar do capitão do mato entrava a figura do policial, que possivelmente representava a mesma coisa na
visão dos escravos: a perseguição deles. Por isso, tanto o capitão do mato quanto o policial teriam a mesma função, o papel da
manutenção da ordem social, isto é, manter o escravo na senzala, manter o pobre no morro. Hoje a figura da polícia é vista como a instituição que preza e garante
a segurança. Bom, isso é o que ela deveria ser, mas de fato o é?
Como já dizia Paul Vidal de La Blache no final do século XIX e início do passado, os gêneros de vida - hábitos, tradições e
técnicas - marcam a ação humana na paisagem. Trazendo essa visão de Vidal para o Rio de Janeiro, os hábitos da elite marcaram
nosso espaço, segregando-o. Eis os processos conhecidos como segregação induzida (imposta aos menos favorecidos) e a
auto-segregação (promovida pelos ricos).
Com a abolição da escravatura, os escravos ganharam sua liberdade, está bastante limitada, uma vez que os escravos
migraram das senzalas às favelas. Isso porque o acesso à terra não era possível e a urbanização, sobretudo com Pereira Passos,
trouxesse consigo a infra-estrutura mas também trouxe a especulação imobiliária, afastando a população de baixo poder aquisitivo
do espaço urbano. E para onde iriam essas pessoas? Para as favelas. Assim então que o espaço é segregado. E até mesmo dentro
das favelas ocorre segregação. As áreas mais baixas dos morros são, geralmente, as mais valorizadas, sendo então ocupadas pela
população de renda relativamente maior.
Diversos são os problemas com relação a favela: tráfico de drogas e armas, falta de saneamento básico, falta de educação,
ausência de planejamento familiar, etc. Tudo isso vai encadear na violência urbana, um mal que atinge não só aos pobres,
mas também aos ricos. Estes foram obrigados a combater a criminalidade se segregando ainda mais, colocando grades e fios
elétricos nos prédios, contratando seguranças particulares e utilizando carros cada vez mais seguros. Todas essas medidas geram
um grande consumo de energia e quais são as conseqüências disso sobre o meio ambiente? Sem dúvidas bem impactantes,
no entanto, o governo não condena essas atitudes (ele não deveria zelar pela conservação da natureza?), mas pretende levantar
muros nas favelas, para segregar ainda mais o espaço, evidenciando as contradições.
Como coloquei no início, o Morro Dona Marta foi alvo de uma ocupação da polícia no ano passado. Bem provavelmente
essa ocupação foi feita mediante ao uso da violência policial. Sem dúvida, hoje o êxito da operação é inegável, bem como
proporcionou melhorias para população, ao afastar o tráfico. Foi desse êxito que a política dos ecolimites foi propagandeada e
legitimada, por isso, lá a construção do muro já se encontra em andamento. Será que todo esse dinheiro com o projeto não poderia
ser destinado a uma educação de qualidade aos menos favorecidos? Ou a um sistema de saúde que funcione? Diga-se de passagem - segundo dados do site da folha uol - o custo do projeto está previsto em torno de 40 milhões de reais. Verba essa para isolar as favelas, com destaque para as da zona sul - onde está a população de maior poder aquisitivo - 11 quilômetros ao total.
Todo esse quadro que levantei visa criticar a declaração estúpida e infeliz do chefe da Casa Civil - Regis Fichtner,
se referindo à construção de muro:
“Não há nada de segregacionista nisso, pelo contrário. É uma coisa que é da nossa cultura, todo mundo que mora em
prédio, em casa tem muro para delimitar justamente onde termina sua propriedade e onde começa a do outro. No caso, vamos
delimitar onde termina a propriedade dos moradores da favela e onde começa a mata, que pertence a toda a população do
Rio de Janeiro”. Isso é um verdadeiro absurdo!
Sem dúvida o crescimento das favelas deve ser contido, mas essas medidas são paleativas e interferem na liberdade dos
moradores de bem. Para resolver este problema seria mais coerente a realização de um programa de habitação popular, mas uma
iniciativa séria e não essa que temos, que atende somente a demanda da classe média. Os moradores da Rocinha
- conforme informou o noticiário da globo hoje - se manifestaram contra a construção do muro. Será que a voz deles serão ouvidas?
Ou serão, mais uma vez, caladas e ignoradas?


Autor: Felipe Cavalcanti de Araujo

Link da reportagem, que foi ao ar ontem, no RJTV: http://rjtv.globo.com/Jornalismo/RJTV/0,,MUL1111517-9099,00.html