domingo, 29 de novembro de 2009

Uma resenha geográfica e crítca do texto: As lições da tsunami

O estudo da autora situa-se em um contexto de profundas mudanças, o que se convencionou chamar de crise da modernidade e o possível advento de uma fase pós-moderna. Esse novo paradigma se sintetiza através da (des)ordem do espaço globalizado, que superestima o econômico e subestima todas as demais questões. A ordem do mundo globalizado apresenta como uma de suas facetas a subordinação da sociedade e das questões ambientais perante ao econômico. Em suma, segundo essa lógica, tudo estaria a serviço da economia. Tal globalização não seria soberano triunfante como o mundo acreditara a partir de 1989/1991 – com a queda do muro de Berlim e o fim da URSS, respectivamente – até 2001. Eis que este ano se torna emblemático pelo atentado terrorista no World Trade Center, em 11 de setembro. As ruínas do símbolo da economia mundial revelava um dos aspectos de toda fragilidade de nossos tempos, sendo parte que integra todo um conjunto que Leonardo Boff chama de crise civilizatória. A autora parte de outro ponto que revela essa crise geral, a tsunami de 26 de dezembro de 2004, também inserida em todo o contexto.
SHIVA começa suas reflexões sobre a tsunami já chamando a atenção para a época do ano que o fenômeno ocorreu. Se deu logo um dia após o natal, nas festas de final de ano, em que turistas de toda a parte na Índia e no sudeste asiático como um todo se encontravam. Isso contribuiu para a maior difusão de notícias e a grande repercussão do acontecido. Mas se não fosse durante a alta temporada turística, o desastre teria recebido todo esse destaque? Se só a população asiática tivesse sofrido com a tsunami ele teria tamanha ênfase? Embora tais indagações sejam complexas de se responder a priori, elas nos levam a concluir que ainda hoje existe o etnocentrismo, que coloca em enfrentamento os países desenvolvidos – detetores da civilização – e os subdesenvolvidos, o chamado conflito norte x sul da nova ordem mundial.
Após essa breve introdução, a autora busca encontrar as lições que a tsunami teria provocado à sociedade. E resume a questão – também como forma de dar um ponta pé inicial para discuti-la – dizendo : “Necessitamos escutar a Terra”. Então, ela apresenta a primeira lição, identificando a problemática do desenvolvimento das regiões costeiras. A exploração econômica dessas áreas se da de formas mais variadas possíveis, como atividades de hotelaria, criação de camarão, etc. A autora chega à conclusão de que a vegetação dos mangues, os corais funcionam como barreiras para esse tipo de desastre. Como onde a tsunami ocorreu tal barreira não era efetiva, tendo em vista à atividade turística, a destruição foi potencializada. SHIVA bem coloca que as áreas mais atingidas pela tsunami foram aquelas que eram mais densamente industrializadas e com maior produção de camarão, e sendo por isso mais alteradas. Em contrapartida, nos territórios de tribos nativas, o número de mortos foi muito menor. Com isso, a autora fornece uma prova da validade da primeira lição.
Em seguida, a autora levanta a problemática de que os governos optam por um projeto de desenvolvimento que desconsidera, ou secundarizam os problemas ambientais. Entretanto, ela não explicita que o governo é, não raro, um Estado de privilégios concedidos a pequenos grupos (elites) que o apóia e que se auto-constitui – de maneira que a elite não só é beneficiada pelo Estado, como também o compõem. Esse é o modo de produção do espaço no sistema capitalista, que está no cerne mais profundo de toda essa problemática.
Outra lição é discutida, em que a sociedade de mercado, ao ter como principal objetivo o econômico, está fadada à intensas dificuldades de lidar com desastres, uma vez que a natureza e o homem são fatores em segundo plano, subordinados ao imperativo do capital. Nesse questionamento, a autora fornece um excelente exemplo, quando diz: “Enquanto as bolsas de valores reagem instantaneamente aos sinais mais tênues de oscilação do mercado(...) o mundo levou semanas para contar quantos morreram, quantos ficaram sem teto”. Isso nos permite verificar que o problema não é a tecnologia, mas sim a quem ela está a serviço. Caso tivesse a serviço da sociedade como um todo de forma simétrica, tais informações indagadas pela autora seriam mais rapidamente estabelecidas.
Merece destaque outra passagem, sobre o artigo da Índia em que foi declarado que “o mercado não seria afetado pelo desastre” evidenciando o descaso com os problemas sociais e a “boa” notícia, pelo âmbito econômico que tudo reduz e parece deixar o sistema capitalista em torpor.
A terceira e última lição que a autora coloca diz respeito ao link entre a tsunami e outras formas de desastres, com destaque para as mudanças climáticas, dando uma idéia mas articulada e de inter-conexão entre os problemas sócio-ambientais. Entretanto, a autora negligencia o fato de a Índia estar em uma área de instabilidade geológica, com intensos choques entre as placas Euroasiática e a placa indiana, as mesmas que ergueram o Himalaia. SHIVA parece acreditar que a tsunami é um fenômeno climático, embora também o seja, a base para seu entendimento é a geologia. O espaço geográfico - a síntese do conflito sócio-ambiental - mais uma vez é negligenciado. Para explicar esses desastres, a autora faz uma boa crítica a Lomborg e ao consenso de Copenhagen. O primeiro, por negar a redução do lançamento de gases CO², alegando que reduzir-se-ia o crescimento econômico. E o consenso por minimizar os possíveis efeitos no clima pelas atividades econômicas e/ou industriais.
Para finalizar, a autora exalta o prejuízo provocado pelo que ela chama de “maior tragédia dos tempos modernos” como sendo o privado em detrimento ao público, ou seja, o conflito de interesses entre público – que deveria ser de interesse do governo – e o privado – que o governo privilegia. Outra questão posta ao final do texto, é a dicotomia entre o livre mercado e o que a autora chama de “democracia na Terra”. O livre mercado, representa o sistema capitalista. Já a democracia na Terra, é abordada pela autora de forma reducionista, de uma forma dotada de um antropocentrismo, há que se considerar o direito à vida por todas as formas de vida, uma visão biocêntrica.


Referência bibliográfica:
SHIVA, Vandana – The ecologist 2005

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Por Uma Geografia Crítica do Projeto " Ecolimites"



Ao assistir o jornal RJTV da rede globo lá pelas 7 horas da noite de hoje, não pude deixar de notar uma reportagem de
enorme conteúdo geográfico e que ainda tem muito de ser discutido. O tema era sobre os ecolimites, que já está em destaque na
mídia há algum tempo, sendo atrelada a outra temática - a pacificação do Morro Dona Marta em Botafogo - este já não tão recente
assim.
O projeto do governo estadual - que está sendo conhecido como “ecolimites” - consiste em construir enormes paredões
ao redor das favelas do Rio de Janeiro. E o que pretende o governo com isso? Ora, como já diz o nome, o objetivo é impedir
o crescimento desordenado das favelas, a fim de preservar a natureza da cidade maravilhosa. Basta construir ecolimites e todos os
problemas ambientais estarão resolvidos? Não sejamos tão ingênuos! Será que somente a questão ambiental está por trás disso?
O meio ambiente está no cetro das atenções a nível mundial. É claro que essa questão merece toda a nossa atenção,
poderia enumerar uma série de problemas ambientais, tais como o aquecimento global e os grandes perigos das atividades
mineradoras e da energia nuclear, mas não pretendo abordar isso mais a fundo, quem sabe uma próxima vez. No que diz respeito a
essa questão em moda, devo alertar que há uma grande especulação sobre o meio ambiente - principalmente por parte da mídia.
Voltando à questão do Rio, me parece que os problemas ambientais estão longe de ser o objetivo central da política em
nosso estado. Prova disso é o imenso descaso com a Baía de Guanabara. Somente em 2001 que a estação de tratamentos de suas
águas foi inaugurada e ainda assim, 5 anos depois, somente um quinto de sua capacidade operava em maio de 2006. Com relação ao
projeto dos ecolimites, a ecologia deve apresentar sim a sua importância, porém, ela é secundarizada frente à questão social que
isto tudo permeia. É nesta segunda questão que proponho minha reflexão.
O espaço do Rio de Janeiro é um espaço marcado pelas contradições. Em termos sócio-econômicos essas contradições
saltam à vista, mesmo a um breve olhar. E a síntese disso é a dicotomia, que já se tornou clichê: de um lado o morro, de outro, o
asfalto. De um lado, Rocinha, de outro, São Conrado. De um lado Cantagalo, do outro, Ipanema. Está é uma das contradições, a
elite econômica vive ao lado daqueles que ela vê como os “favelados - criminosos”.
Voltando um pouco no tempo, podemos detectar a origem do problema das favelas no Rio de Janeiro, bem como em todo o
Brasil. Refiro-me à escravidão. Outro fator importante é a concentração de terras, originada no início da colonização pelo sistema de
capitanias hereditárias. Concentração fundiária essa que permanece e se acentua até os dias de hoje. Eis que com a vinda da família
real criou-se a polícia. No lugar do capitão do mato entrava a figura do policial, que possivelmente representava a mesma coisa na
visão dos escravos: a perseguição deles. Por isso, tanto o capitão do mato quanto o policial teriam a mesma função, o papel da
manutenção da ordem social, isto é, manter o escravo na senzala, manter o pobre no morro. Hoje a figura da polícia é vista como a instituição que preza e garante
a segurança. Bom, isso é o que ela deveria ser, mas de fato o é?
Como já dizia Paul Vidal de La Blache no final do século XIX e início do passado, os gêneros de vida - hábitos, tradições e
técnicas - marcam a ação humana na paisagem. Trazendo essa visão de Vidal para o Rio de Janeiro, os hábitos da elite marcaram
nosso espaço, segregando-o. Eis os processos conhecidos como segregação induzida (imposta aos menos favorecidos) e a
auto-segregação (promovida pelos ricos).
Com a abolição da escravatura, os escravos ganharam sua liberdade, está bastante limitada, uma vez que os escravos
migraram das senzalas às favelas. Isso porque o acesso à terra não era possível e a urbanização, sobretudo com Pereira Passos,
trouxesse consigo a infra-estrutura mas também trouxe a especulação imobiliária, afastando a população de baixo poder aquisitivo
do espaço urbano. E para onde iriam essas pessoas? Para as favelas. Assim então que o espaço é segregado. E até mesmo dentro
das favelas ocorre segregação. As áreas mais baixas dos morros são, geralmente, as mais valorizadas, sendo então ocupadas pela
população de renda relativamente maior.
Diversos são os problemas com relação a favela: tráfico de drogas e armas, falta de saneamento básico, falta de educação,
ausência de planejamento familiar, etc. Tudo isso vai encadear na violência urbana, um mal que atinge não só aos pobres,
mas também aos ricos. Estes foram obrigados a combater a criminalidade se segregando ainda mais, colocando grades e fios
elétricos nos prédios, contratando seguranças particulares e utilizando carros cada vez mais seguros. Todas essas medidas geram
um grande consumo de energia e quais são as conseqüências disso sobre o meio ambiente? Sem dúvidas bem impactantes,
no entanto, o governo não condena essas atitudes (ele não deveria zelar pela conservação da natureza?), mas pretende levantar
muros nas favelas, para segregar ainda mais o espaço, evidenciando as contradições.
Como coloquei no início, o Morro Dona Marta foi alvo de uma ocupação da polícia no ano passado. Bem provavelmente
essa ocupação foi feita mediante ao uso da violência policial. Sem dúvida, hoje o êxito da operação é inegável, bem como
proporcionou melhorias para população, ao afastar o tráfico. Foi desse êxito que a política dos ecolimites foi propagandeada e
legitimada, por isso, lá a construção do muro já se encontra em andamento. Será que todo esse dinheiro com o projeto não poderia
ser destinado a uma educação de qualidade aos menos favorecidos? Ou a um sistema de saúde que funcione? Diga-se de passagem - segundo dados do site da folha uol - o custo do projeto está previsto em torno de 40 milhões de reais. Verba essa para isolar as favelas, com destaque para as da zona sul - onde está a população de maior poder aquisitivo - 11 quilômetros ao total.
Todo esse quadro que levantei visa criticar a declaração estúpida e infeliz do chefe da Casa Civil - Regis Fichtner,
se referindo à construção de muro:
“Não há nada de segregacionista nisso, pelo contrário. É uma coisa que é da nossa cultura, todo mundo que mora em
prédio, em casa tem muro para delimitar justamente onde termina sua propriedade e onde começa a do outro. No caso, vamos
delimitar onde termina a propriedade dos moradores da favela e onde começa a mata, que pertence a toda a população do
Rio de Janeiro”. Isso é um verdadeiro absurdo!
Sem dúvida o crescimento das favelas deve ser contido, mas essas medidas são paleativas e interferem na liberdade dos
moradores de bem. Para resolver este problema seria mais coerente a realização de um programa de habitação popular, mas uma
iniciativa séria e não essa que temos, que atende somente a demanda da classe média. Os moradores da Rocinha
- conforme informou o noticiário da globo hoje - se manifestaram contra a construção do muro. Será que a voz deles serão ouvidas?
Ou serão, mais uma vez, caladas e ignoradas?


Autor: Felipe Cavalcanti de Araujo

Link da reportagem, que foi ao ar ontem, no RJTV: http://rjtv.globo.com/Jornalismo/RJTV/0,,MUL1111517-9099,00.html