Ao assistir o jornal RJTV da rede globo lá pelas 7 horas da noite de hoje, não pude deixar de notar uma reportagem de
enorme conteúdo geográfico e que ainda tem muito de ser discutido. O tema era sobre os ecolimites, que já está em destaque na
mídia há algum tempo, sendo atrelada a outra temática - a pacificação do Morro Dona Marta em Botafogo - este já não tão recente
assim.
O projeto do governo estadual - que está sendo conhecido como “ecolimites” - consiste em construir enormes paredões
ao redor das favelas do Rio de Janeiro. E o que pretende o governo com isso? Ora, como já diz o nome, o objetivo é impedir
o crescimento desordenado das favelas, a fim de preservar a natureza da cidade maravilhosa. Basta construir ecolimites e todos os
problemas ambientais estarão resolvidos? Não sejamos tão ingênuos! Será que somente a questão ambiental está por trás disso?
O meio ambiente está no cetro das atenções a nível mundial. É claro que essa questão merece toda a nossa atenção,
poderia enumerar uma série de problemas ambientais, tais como o aquecimento global e os grandes perigos das atividades
mineradoras e da energia nuclear, mas não pretendo abordar isso mais a fundo, quem sabe uma próxima vez. No que diz respeito a
essa questão em moda, devo alertar que há uma grande especulação sobre o meio ambiente - principalmente por parte da mídia.
Voltando à questão do Rio, me parece que os problemas ambientais estão longe de ser o objetivo central da política em
nosso estado. Prova disso é o imenso descaso com a Baía de Guanabara. Somente em 2001 que a estação de tratamentos de suas
águas foi inaugurada e ainda assim, 5 anos depois, somente um quinto de sua capacidade operava em maio de 2006. Com relação ao
projeto dos ecolimites, a ecologia deve apresentar sim a sua importância, porém, ela é secundarizada frente à questão social que
isto tudo permeia. É nesta segunda questão que proponho minha reflexão.
O espaço do Rio de Janeiro é um espaço marcado pelas contradições. Em termos sócio-econômicos essas contradições
saltam à vista, mesmo a um breve olhar. E a síntese disso é a dicotomia, que já se tornou clichê: de um lado o morro, de outro, o
asfalto. De um lado, Rocinha, de outro, São Conrado. De um lado Cantagalo, do outro, Ipanema. Está é uma das contradições, a
elite econômica vive ao lado daqueles que ela vê como os “favelados - criminosos”.
Voltando um pouco no tempo, podemos detectar a origem do problema das favelas no Rio de Janeiro, bem como em todo o
Brasil. Refiro-me à escravidão. Outro fator importante é a concentração de terras, originada no início da colonização pelo sistema de
capitanias hereditárias. Concentração fundiária essa que permanece e se acentua até os dias de hoje. Eis que com a vinda da família
real criou-se a polícia. No lugar do capitão do mato entrava a figura do policial, que possivelmente representava a mesma coisa na
visão dos escravos: a perseguição deles. Por isso, tanto o capitão do mato quanto o policial teriam a mesma função, o papel da
manutenção da ordem social, isto é, manter o escravo na senzala, manter o pobre no morro. Hoje a figura da polícia é vista como a instituição que preza e garante
a segurança. Bom, isso é o que ela deveria ser, mas de fato o é?
Como já dizia Paul Vidal de La Blache no final do século XIX e início do passado, os gêneros de vida - hábitos, tradições e
técnicas - marcam a ação humana na paisagem. Trazendo essa visão de Vidal para o Rio de Janeiro, os hábitos da elite marcaram
nosso espaço, segregando-o. Eis os processos conhecidos como segregação induzida (imposta aos menos favorecidos) e a
auto-segregação (promovida pelos ricos).
Com a abolição da escravatura, os escravos ganharam sua liberdade, está bastante limitada, uma vez que os escravos
migraram das senzalas às favelas. Isso porque o acesso à terra não era possível e a urbanização, sobretudo com Pereira Passos,
trouxesse consigo a infra-estrutura mas também trouxe a especulação imobiliária, afastando a população de baixo poder aquisitivo
do espaço urbano. E para onde iriam essas pessoas? Para as favelas. Assim então que o espaço é segregado. E até mesmo dentro
das favelas ocorre segregação. As áreas mais baixas dos morros são, geralmente, as mais valorizadas, sendo então ocupadas pela
população de renda relativamente maior.
Diversos são os problemas com relação a favela: tráfico de drogas e armas, falta de saneamento básico, falta de educação,
ausência de planejamento familiar, etc. Tudo isso vai encadear na violência urbana, um mal que atinge não só aos pobres,
mas também aos ricos. Estes foram obrigados a combater a criminalidade se segregando ainda mais, colocando grades e fios
elétricos nos prédios, contratando seguranças particulares e utilizando carros cada vez mais seguros. Todas essas medidas geram
um grande consumo de energia e quais são as conseqüências disso sobre o meio ambiente? Sem dúvidas bem impactantes,
no entanto, o governo não condena essas atitudes (ele não deveria zelar pela conservação da natureza?), mas pretende levantar
muros nas favelas, para segregar ainda mais o espaço, evidenciando as contradições.
Como coloquei no início, o Morro Dona Marta foi alvo de uma ocupação da polícia no ano passado. Bem provavelmente
essa ocupação foi feita mediante ao uso da violência policial. Sem dúvida, hoje o êxito da operação é inegável, bem como
proporcionou melhorias para população, ao afastar o tráfico. Foi desse êxito que a política dos ecolimites foi propagandeada e
legitimada, por isso, lá a construção do muro já se encontra em andamento. Será que todo esse dinheiro com o projeto não poderia
ser destinado a uma educação de qualidade aos menos favorecidos? Ou a um sistema de saúde que funcione? Diga-se de passagem - segundo dados do site da folha uol - o custo do projeto está previsto em torno de 40 milhões de reais. Verba essa para isolar as favelas, com destaque para as da zona sul - onde está a população de maior poder aquisitivo - 11 quilômetros ao total.
Todo esse quadro que levantei visa criticar a declaração estúpida e infeliz do chefe da Casa Civil - Regis Fichtner,
se referindo à construção de muro:
“Não há nada de segregacionista nisso, pelo contrário. É uma coisa que é da nossa cultura, todo mundo que mora em
prédio, em casa tem muro para delimitar justamente onde termina sua propriedade e onde começa a do outro. No caso, vamos
delimitar onde termina a propriedade dos moradores da favela e onde começa a mata, que pertence a toda a população do
Rio de Janeiro”. Isso é um verdadeiro absurdo!
Sem dúvida o crescimento das favelas deve ser contido, mas essas medidas são paleativas e interferem na liberdade dos
moradores de bem. Para resolver este problema seria mais coerente a realização de um programa de habitação popular, mas uma
iniciativa séria e não essa que temos, que atende somente a demanda da classe média. Os moradores da Rocinha
- conforme informou o noticiário da globo hoje - se manifestaram contra a construção do muro. Será que a voz deles serão ouvidas?
Ou serão, mais uma vez, caladas e ignoradas?
Autor: Felipe Cavalcanti de Araujo
Link da reportagem, que foi ao ar ontem, no RJTV: http://rjtv.globo.com/Jornalismo/RJTV/0,,MUL1111517-9099,00.html
enorme conteúdo geográfico e que ainda tem muito de ser discutido. O tema era sobre os ecolimites, que já está em destaque na
mídia há algum tempo, sendo atrelada a outra temática - a pacificação do Morro Dona Marta em Botafogo - este já não tão recente
assim.
O projeto do governo estadual - que está sendo conhecido como “ecolimites” - consiste em construir enormes paredões
ao redor das favelas do Rio de Janeiro. E o que pretende o governo com isso? Ora, como já diz o nome, o objetivo é impedir
o crescimento desordenado das favelas, a fim de preservar a natureza da cidade maravilhosa. Basta construir ecolimites e todos os
problemas ambientais estarão resolvidos? Não sejamos tão ingênuos! Será que somente a questão ambiental está por trás disso?
O meio ambiente está no cetro das atenções a nível mundial. É claro que essa questão merece toda a nossa atenção,
poderia enumerar uma série de problemas ambientais, tais como o aquecimento global e os grandes perigos das atividades
mineradoras e da energia nuclear, mas não pretendo abordar isso mais a fundo, quem sabe uma próxima vez. No que diz respeito a
essa questão em moda, devo alertar que há uma grande especulação sobre o meio ambiente - principalmente por parte da mídia.
Voltando à questão do Rio, me parece que os problemas ambientais estão longe de ser o objetivo central da política em
nosso estado. Prova disso é o imenso descaso com a Baía de Guanabara. Somente em 2001 que a estação de tratamentos de suas
águas foi inaugurada e ainda assim, 5 anos depois, somente um quinto de sua capacidade operava em maio de 2006. Com relação ao
projeto dos ecolimites, a ecologia deve apresentar sim a sua importância, porém, ela é secundarizada frente à questão social que
isto tudo permeia. É nesta segunda questão que proponho minha reflexão.
O espaço do Rio de Janeiro é um espaço marcado pelas contradições. Em termos sócio-econômicos essas contradições
saltam à vista, mesmo a um breve olhar. E a síntese disso é a dicotomia, que já se tornou clichê: de um lado o morro, de outro, o
asfalto. De um lado, Rocinha, de outro, São Conrado. De um lado Cantagalo, do outro, Ipanema. Está é uma das contradições, a
elite econômica vive ao lado daqueles que ela vê como os “favelados - criminosos”.
Voltando um pouco no tempo, podemos detectar a origem do problema das favelas no Rio de Janeiro, bem como em todo o
Brasil. Refiro-me à escravidão. Outro fator importante é a concentração de terras, originada no início da colonização pelo sistema de
capitanias hereditárias. Concentração fundiária essa que permanece e se acentua até os dias de hoje. Eis que com a vinda da família
real criou-se a polícia. No lugar do capitão do mato entrava a figura do policial, que possivelmente representava a mesma coisa na
visão dos escravos: a perseguição deles. Por isso, tanto o capitão do mato quanto o policial teriam a mesma função, o papel da
manutenção da ordem social, isto é, manter o escravo na senzala, manter o pobre no morro. Hoje a figura da polícia é vista como a instituição que preza e garante
a segurança. Bom, isso é o que ela deveria ser, mas de fato o é?
Como já dizia Paul Vidal de La Blache no final do século XIX e início do passado, os gêneros de vida - hábitos, tradições e
técnicas - marcam a ação humana na paisagem. Trazendo essa visão de Vidal para o Rio de Janeiro, os hábitos da elite marcaram
nosso espaço, segregando-o. Eis os processos conhecidos como segregação induzida (imposta aos menos favorecidos) e a
auto-segregação (promovida pelos ricos).
Com a abolição da escravatura, os escravos ganharam sua liberdade, está bastante limitada, uma vez que os escravos
migraram das senzalas às favelas. Isso porque o acesso à terra não era possível e a urbanização, sobretudo com Pereira Passos,
trouxesse consigo a infra-estrutura mas também trouxe a especulação imobiliária, afastando a população de baixo poder aquisitivo
do espaço urbano. E para onde iriam essas pessoas? Para as favelas. Assim então que o espaço é segregado. E até mesmo dentro
das favelas ocorre segregação. As áreas mais baixas dos morros são, geralmente, as mais valorizadas, sendo então ocupadas pela
população de renda relativamente maior.
Diversos são os problemas com relação a favela: tráfico de drogas e armas, falta de saneamento básico, falta de educação,
ausência de planejamento familiar, etc. Tudo isso vai encadear na violência urbana, um mal que atinge não só aos pobres,
mas também aos ricos. Estes foram obrigados a combater a criminalidade se segregando ainda mais, colocando grades e fios
elétricos nos prédios, contratando seguranças particulares e utilizando carros cada vez mais seguros. Todas essas medidas geram
um grande consumo de energia e quais são as conseqüências disso sobre o meio ambiente? Sem dúvidas bem impactantes,
no entanto, o governo não condena essas atitudes (ele não deveria zelar pela conservação da natureza?), mas pretende levantar
muros nas favelas, para segregar ainda mais o espaço, evidenciando as contradições.
Como coloquei no início, o Morro Dona Marta foi alvo de uma ocupação da polícia no ano passado. Bem provavelmente
essa ocupação foi feita mediante ao uso da violência policial. Sem dúvida, hoje o êxito da operação é inegável, bem como
proporcionou melhorias para população, ao afastar o tráfico. Foi desse êxito que a política dos ecolimites foi propagandeada e
legitimada, por isso, lá a construção do muro já se encontra em andamento. Será que todo esse dinheiro com o projeto não poderia
ser destinado a uma educação de qualidade aos menos favorecidos? Ou a um sistema de saúde que funcione? Diga-se de passagem - segundo dados do site da folha uol - o custo do projeto está previsto em torno de 40 milhões de reais. Verba essa para isolar as favelas, com destaque para as da zona sul - onde está a população de maior poder aquisitivo - 11 quilômetros ao total.
Todo esse quadro que levantei visa criticar a declaração estúpida e infeliz do chefe da Casa Civil - Regis Fichtner,
se referindo à construção de muro:
“Não há nada de segregacionista nisso, pelo contrário. É uma coisa que é da nossa cultura, todo mundo que mora em
prédio, em casa tem muro para delimitar justamente onde termina sua propriedade e onde começa a do outro. No caso, vamos
delimitar onde termina a propriedade dos moradores da favela e onde começa a mata, que pertence a toda a população do
Rio de Janeiro”. Isso é um verdadeiro absurdo!
Sem dúvida o crescimento das favelas deve ser contido, mas essas medidas são paleativas e interferem na liberdade dos
moradores de bem. Para resolver este problema seria mais coerente a realização de um programa de habitação popular, mas uma
iniciativa séria e não essa que temos, que atende somente a demanda da classe média. Os moradores da Rocinha
- conforme informou o noticiário da globo hoje - se manifestaram contra a construção do muro. Será que a voz deles serão ouvidas?
Ou serão, mais uma vez, caladas e ignoradas?
Autor: Felipe Cavalcanti de Araujo
Link da reportagem, que foi ao ar ontem, no RJTV: http://rjtv.globo.com/Jornalismo/RJTV/0,,MUL1111517-9099,00.html
