O Problema...
Segunda-feira, seria mais um início de uma semana como outro qualquer. Pessoas acordando cedo para ir trabalhar, estudar - de modo mais geral - praticar o seu espaço, sair de suas casas e vivenciar as ruas. Porém, a semana terminou sem começar. Isso porque em seu primeiro dia útil, a cidade viu, perplexa, a sua incapacidade e imobilidade frente à enchente. A cidade viu a baixada inundar e a encosta deslizar. Eu, particularmente, estava em Niterói e na volta pra casa, lá pelas 5 horas da tarde, fui surpreendido como milhares foram. Pouco antes de chegar à Praça da Bandeira, o ônibus parou no engarrafamento, mas não fora só o ônibus que parou, fora toda a cidade. Depois de meia hora parado que fui me dar conta que o problema ia além da paisagem que meus olhos podiam abraçar. Dentro do ônibus, desorientação e inquietude, fora dele, a realidade parecia ser a mesma, entretanto, a inquietude se traduzia em imobilidade, todos inertes. A única dinâmica era a da natureza: a chuva torrencial, ruas dando lugar a rios, inundações... No alto de um viaduto, olhava ao lado carros, em um deles, um homem tentando tirar toda a água - com um pequeno recipiente - do interior de seu veículo, e este, dentro da rua que virara rio, onde corriam águas e lixos. Os carros, ao contrário, para não escoarem junto com as águas, declive abaixo, eram colocados em cima da calçada, na medida do possível, embora essa medida não evitasse menos transtornos, ao contrário, parecia em vão. Era essa a síntese da cena que eu somente podia observar. A cidade estava prestes a sucumbir
As geografias do Rio de Janeiro convergem à uma geografia do caos...
O espaço carioca não parece ser tão maravilhoso quanto a titulação de sua cidade: sua paisagem sem dúvida é belíssima e isso não se pode negar, porém, também a é contraditória, é problemática. De certa forma, o espaço carioca é completamente incompatível ao modo de vida urbano vigente até então. Chuvas torrenciais e cidades são duas esferas que ainda não se combinam harmonicamente embora elas coexistam em nosso espaço-tempo, mas essa coexistência é marcada por incompatibilidades. Prova disso é que quando encontra-se o tempo nublado, chuvoso, designa-se como "tempo ruím", traduza-se tempo ruím à cidade, na medida que quando há sol e céu claro, é o tempo bom para a cidade, porque não lhe impõe restrições a priori. A questão é que o Rio de Janeiro apresenta clima tropical oceânico, o que se traduz em altas temperaturas e chuvas concentradas no verão. "São as águas de Março fechando o verão", já diria Tom Jobim, para esse ano, sua "misteriosa profecia" se atrasaram algumas poucas semanas. Fecharam não só o verão, mas também as ruas e toda a cidade. É inacreditável como uma cidade, um estado e até o país como o nosso não demostram a menor importância com essas questões, e nossos "representantes" continuam a fechar os olhos para esse problema. Esse mesmo clima e os processsos geomorfológicos interagindo entre si, também junto à vegetação, é o que Aziz Ab' Saber chama de mares de morros, o domínio morfoclimático da região Sudeste. O sítio urbano do Rio de Janeiro, isto é, a base física sobre qual a cidade tenta se tornar viável, é exatamente isso. Um sítio altamente irregular, com ampla presença de morros, o que sempre foi uma preocupação. O sítio carioca pode ser caracterizado, de forma geral, por morros e baixadas, isso sem contar o artificial adventos de aterros. Considerável parte do território encontra-se situado entre os morros e o oceâno, foram essas áreas que alagaram. Já nos morros, tem-se um rasa camada de sedimentos e abaixo desta, rochas pouco permeáveis (magmáticas ou metamórficas). Ocorre que quando uma chuva torrencial como a de segunda-feira cai sobre esse espaço, o resultado não pode ser diferente. A camada pouco profunda de sedimentos é rapidamente saturada, o que significa que em pouco tempo adsorve a água, sua capacidade de absorção é então muito limitada. O grande excesso de águas da chuva, não sendo infiltrado pela camada sedimentar, atinge a rocha impermeável e com a declividade do terreno, a água escoa superficialmente. Os sedimentos, mais pesados uma vez que estão enxarcados, deslizam rocha abaixo. Foi isso o que ocorreu nessa segunda-feira. As encostas deslizaram, carregando grande carga de sedimentos. As baixadas, alagadas e recebendo mais materiais das encostas. É isso toda a lama que encontramos essa semana por grande parte do Rio de Janeiro. Lama por todos os lados. É conviniente lembrar que a cidade do Rio de Janeiro foi criada em cima do morro do Castelo, com finalidades militares, possibilitando uma melhor tentativa do controle do território, uma vez que os francêses tinham acabado de ser expulsos. Conforme a cidade foi crescendo, ela foi descendo o morro, ocupando as áreas mais baixas. Mas foi no século XX, na década de 20 que a política do Bota Abaixo começou a ser implementada. O morro passou a ser visto como transmissor de doenças, barreiras que impedem a circulação do ar, e por isso, haveriam de ser colocados abaixo. Foi isso que aconteceu com o morro Castelo. A visão que o Estado de hoje tem com releção aos morros parece não ser muito diferente da do início do século passado. Com relação a isso, pouca coisa mudou. Outro aspecto geográfico que potencializou os efeitos do desastre é a divisão sócio-espacial de nosso espaço. A população pobre, marginalizada, vão acabar criando seus lugares nos morros, já que a especulação imobiliária e a elite tomaram conta de todo o resto e criaram os mais variados mecanismos de impedir o acesso e a moradia de pobres nesses espaços, sendo os principais deles a polícia e as políticas de muito de nossos governantes.
Políticos que sempre buscam e apontam culpados. Nos chamam de porcos, badernistas e vândalos, nos chamam às ruas e agora...
Depois desse trágico acontecimento, me vem a cabeça alguns episódios, que já havia discutido com alguns amigos e agora, aproveito a oportunidade pra colocar essas reflexões, que parecem bem oportunas agora. Se não me engano, o primeiro deles foi em novembro passado, quando nosso prefeito, excelentíssimo Eduardo Paes, que sistematicamente tem colocado a culpa de todos os problemas sobre a população. No final do ano passado, o Estado adotou a política do "lixômetro" nas praias e chamou, em rede nacional, os cariocas de porcos! Declaração infeliz, uma figura pública dar um relato tão leviano e descuidado. Responsabiliza a população pela sujeira nas praias para poder cortar gastos governamentais, uma vez que a idéia da política era suspender a coleta de lixo em determinados dias da semana. Em contrapartida, o Estado não oferece uma educação pública de qualidade e tripudia de seus professores, um descaso total. Será mesmo a população porca, ou será o governo desinteresado, a busca de culpados por situações que ele não é capaz de resolver? Será a população porca, ou estará a cidade sinalizando mais uma vez toda a sua fragilidade? Sérgio Cabral, governador do estado, que por sua vez, diga-se de passagem, há dois anos atrás executou uma brilhante manobra política, decretando feriado às vésperas das eleições para prefeito, garantindo a vitória de Eduardo Paes. Só para constatar, a população que viajou para a Região dos Lagos e não voltou para exercer sua cidadania foi aquela de maior poder aquisitivo, da zona sul do Rio de Janeiro, que por sua vez, era um dos maiores eleitorados do outro candidato, Gabeira. A minha crítica com relação a essa população que viajou e não voltou não é menos severa! É inadimissível que uma elite econômica e, partindo do presuposto que bem informada, caia nessa manobra. É inadimissível esse descaso com a política por parte desses que abriram mão de eleger seu candidato para passar alguns poucos dias, aproveitando o sol da Região dos Lagos. Após esse largo parênteses, voltando ao nosso governador,o que chamou a atenção foi com relação ao episódio dos problemas com os trens da Supervia, em particular na estação da Central, no início desse ano. A população trabalhadora, indignada com as pessímas condições dos serviços oferecidos se rebelou, alguns cometeram atos mais extremados em protesto. Mas, a resposta do Estado foi a de sempre: repressão da PM e a declaração de nosso governador foi de que eram bardernistas e vândalos que impedem o funcionamento da cidade e se aproveitaram da situação. Mais uma vez o Estado busca um culpado, que sempre é a população ou parte dela. Após mais uma declaraçao infeliz de uma figura pública que nos "representa" no poder (eu não me vejo representado por eles) o mesmo governador chama a população que fora acusada por duas vezes às ruas. O chamado do povo às ruas não pode ser feito de modo mais indígno. Refiro-me à recente passeata pelos royalties de petróleo. Nunca vi coisa mais inusitada, governador e prefeito, a situação política, organizando uma passeata, em tom de protesto. Só consigo ver esse acontecimento como um atentado do Estado perante a capacidade de mobilização do povo. É como se o Estado dissesse: "Povo, venha às ruas pois eu o convoco. Teremos pão e circo e lutaremos por um interesse econômico nas mãos de poucos, os royalties do petróleo". Afinal, será que aquelas pessoas que lá estavam sabiam mesmo o que estav acontecendo, ou foram para assistir ao show de alguns artistas? Se por um lado, esse episódio mostrou, positivamente, que ainda temos capacidade de nos mobilizar e nos organizar - ainda que de modo questionável - por outro, mostrou também a fragilidade de tal mobilização. Não que a causa do royalties para o Rio de Janeiro não seja justa, mas o que não é justo é o governo, com seu poder político usar de uma arma política da política que não é do Estado, e sim daqueles que não estão no exercício do poder diretamente, mas sim nas massas. Isso sim são as verdadeiras passeatas. Políticos que nos chamam de porcos, badernistas e vândalos, nos chamam às ruas e agora...novamente responsabilizam a população que mora nos morros, nas favelas. Dizem eles, prefeito e governador, que já alertaram inúmeras vezes para o perigo de se morar em áreas de risco. Quanta hipocrisia! É um absurdo termos que ouvir isso! Os que estão no poder nada fazem a não ser culpar a grande parte do povo que vive marginalizada, a mercê do tráfico e das milícias, além de preconceitos e generalização, são duramente responsabilizados pela tragédia. Que culpa tiveram essas pessoas que moram em "áreas de risco"? Lá elas moram não por opção, mas justamente por falta de escolha. O próprio Estado foi, historica e geograficamente, marginalizando a população de baixa renda nos morros, promovendo a segmentação sócio-espacial, e isso vem de longa data. Para esses políticos, é muito fácil culpar essa população pobre, já que não é conviniente promover um programa de habitação que seja realmente popular. É mais conviniente, para eles, contruir cidade da música, do samba, engenhão e mais outras obras-espetáculos, transformar a cidade em um quintal de obras não raro supérfluas, mas que no senso comum, é visto como aquele que "rouba mas faz", porém o faz aleatoriamente, ao meu ver, sem ou com quase nenhuma razão de ser.
Intercâmbio de uma mídia - não raro sensassionalista - com a política institucional
E qual tem sido o posicionamento desses políticos frente a essa tragédia? Já que é impossível para eles se absterem de algo com tamanha magnitude, o que parece é que eles tentam mostrar que algo estão fazendo, sem fazer absolutamente nada na prática e somente se apropriar da mídia com fins de auto-propaganda. Afinal, estamos em ano de eleições. E a primeira prática efetiva que tive notícia, hoje de manhã, foi que tornou-se legal a retirada de pessoas das áreas de riscos. Não que tal remoção não seja necessária, mas com sua sistemática realocação em habitações populares de qualidade. Mas possívelmente isso não será feito. E o que será considerado como áreas de risco e como essas remoções serão feitas, por meio de repressão e violência? Certamente! Na outra direção, o que a mídia vem veiculando a respeito dos acontecimentos? Pelo que pude ver até agora, com raríssimas excessões, o sensassionalismo é carro chefe nas grandes emissoras. Ao ver as cenas da tragédia - e acredito que muitos sabem das cenas que me refiro - lembro-me do modo como o problema da violência é tratado por essa mídia, isto é, de modo massante e implacável, tranformando realidade em espetáculo sobre um desconhecido crivo de imparcialidade. Durante toda a terça-feira a tragédia virou uma espécie de espetáculo. Não que as notícias não tivessem que ser dadas, muito pelo contrário. Mas questiono, sobretudo a forma que elas vêm sendo feitas. É por isso que chamei de intercâmbio essa relação entre política e mídia, em que uma parece visar e complementar a outra, com fins políticos de governança e controle da sociedade através de possíveis prestações de contas perante a tragédia que se abateu sobre o Rio de Janeiro. Prefeito e governador dando comunicados veiculados pelas emissoras de tv. Não saiam de casa, pediam eles. Mas de modo contraditório, o recado para os moradores das "áreas de risco" era o seguinte: "saiam imediatamente de suas casas" e fiquem em um lugar seguro (eu me pergunto: qual?). Outra contradição, dessa vez principalmente com relação à mídia, é que a toda hora se relaciona a tragédia com a geografia do Rio de Janeiro. Sim, de fato tudo tem a ver, porém, a mídia só fica no senso comum da geografia do Rio de Janeiro, sem ter a real idéia de o que isso é ou significa. Prova disso é que a todo momento vemos o meteorologista, explicando os fenômenos atmosféricos; os engenheiros, arquitetos e urbanistas, dando entrevistas a respeito da cidade e as infra-estruturas urbanas. E os geógrafos, quantas vezes um geógrafo foi entrevistado para explicar essa trágica enchente? Fala-se tanto em geografia do Rio de Janeiro, mas se esquecem que quem a estuda e a compreende em tudo o que ela é são os geógrafos. Sabe-se lá porque aos geógrafos, cuja geografia tanto falam, nada é perguntado.
Da meteorologia e dos meteorologistas: Incapacidade técnica ou negligência irresponsável?
Uma outra questão que me deixou muito perplexo e com certo que de uma de mistura de indignação e frustação foi a seguinte: porque o silêncio de nossos meteorologistas? Será que eles não tinham o aparato necessário pra prever essa "anomalia"? Será que preveram, ainda que em menor escala, mas resolveram de modo irresponsável não dar o alerta? Ou será que o modo como essa ciência está se fazendo não é capaz de responer certas perguntas, de prever nada, e somente explicar uma mera fisica da atmosfera? Explicam eles que o Rio de Janeiro encontrava-se com altas temperaturas e com a temperatura do mar também muito elevada, próxima aos 28ºC. Isso provocou uma alta taxa de evaporação, carregando mais as nuvens da frente fria. Tal explicação, embora necessária, parece não ir muito além dessa física da atmosfera, mostrando seus mecanismos de funcionamento. De fato são de grande importância, entretanto, porque não fora dado o alerta? É bem verdade que o Brasil depende da tecnologia norte-americana - se não me engano utilizamos o satélite meteorológico GOES - e o sistema de meteorologia nacional ainda conta com mais 20 radares.
Concluindo...
Enquanto essa visão - que ofusca e faz cegar, cala e despreza toda uma geografia - não for superada, o fantasma do caos irá pairar sobre a cidade. Ele continuará sendo a profecia da geografia cuja voz insiste em ser calada. Essa tragédia da enchente não pode ter suas explicações oferecidas somente pela engenharia, a arquitetura e o urbanismo. Esse reducionismo descuidado faz por tentar camuflar o cerne dos problemas do espaço do Rio de Janeiro, a geografia, seja em seus aspectos políticos-espacias e socias, seja em seus aspectos naturais, sobre qual a geografia tem o dever de explicar e integrar, para uma explicação holística e que dê uma melhor compreensão desse mundo e de sua realidade, que por vezes, parecem escorrer por nossas mãos.
E até quando o dia 5 de Março será lembrado? Sendo otimista, quem sabe até acabar o sonho de 2016 com as olimpíadas, ou talvez bem antes, quandos todos nós apertarmos o verde das urnas, participando daquilo que é conviniente chamar de "a maior festa democrática", que só existe aos olhos dos interesses do governo. Este espera que estendamos nas janelas nossas bandeiras verde e amarela, com a dobradinha copa do mundo e eleições, o Brasil vive em festa, dentro de pouco ela começará esse ano. Assim que o Estado sair de um pseudo-luto.
Felipe Cavalcanti.